Entre o coletivo e o particular, a difícil escolha do ativismo

*resenha de Sobrevivendo de Amor de bell hooks disponível em http://arquivo.geledes.org.br/areas-de-atuacao/questoes-de-genero/180-artigos-de-genero/4799-vivendo-de-amor

Em Sobrevivendo de Amor, bell hooks fala dos efeitos do racismo na auto estima do indivíduo negro.

Ela fala também das dificuldades em se construir enquanto sujeito espiritual e psiquicamente completo em uma sociedade racista a partir das experiências de falta de amor e de uma afetividade quebrada que exige do ser negro uma força e uma inteface social pronta para lidar coma violência e a solidão da experiência do racismo em todas as suas relações sociais.

Pensando nesse contexto e analisando a militância feminista, e negra, especificamente, é possível perceber como as experiências de negação de amor, do racismo e de enfraquecimento coletivo tem permeado nossas relações com o fazer político. E como por vezes essas experiências tomam formas de discurso político perturbadoras, mesmo pensando em organizações políticas articuladas.

Uma dessas formas é a transição da necessidade coletiva de luta, de amor,  libertação e empoderamento para o campo das necessidades e expressões individuais.

Como sintoma da falta de amor. Do racismo. Do nosso apagamento histórico nasceu a gigante necessidade de ser ouvido e visto. De ser levando em conta. De se fazer importante, voz ativa na própria história e experiência. A voz individual precisa existir para quem é apagado socialmente e historicamente.

A vivência é um motor potente da transformação social. É a base do reconhecimento de opressão e é uma das formas de criar o discurso de resistência. Sua importância não pode ser desconsiderada.

É uma máxima comum na militância feminista pós segunda onda que “o particular é público”. E não há com discordar de que nosso contexto particular tem interferência política e que nossas vivências determinam o lugar político de nossos discursos e práticas. Mas até onde a militância pode se pautar no indivíduo ou apenas no particular. E até onde isso nos limita no discurso e na prática da política para bem da coletividade?

O grande problema do discurso baseado apenas na vivência individual é a personalização. A personalização cria mártires, não causas. Cria celebridades. Não ativistas.

A diferença ontológica entre a celebridade e o ativista reside em que o ativista atua para o coletivo. A celebridade atua para si.

Essa é a diferença entre a diva e a militante.

A diva tem uma função estética e de representatividade enquanto artista bem sucedida. Mas seu compromisso é individual, para com a música. A carreira. Suas escolhas são pautadas pelo que comercialmente é relevante para si.

Um ativista é movido pelos interesses de um coletivo. Ativistas escrevem para a comunidade negra. Estudam a comunidade. Atuam pensando na comunidade. E e seus interesses são pautados na comunidade.

Suas influências não são opostas. São apenas diferentes. E residem em campos diferentes da afetividade e da representação negra.

A afetividade que nos leva a amar a militante não nos pode cegar para a função social de sua atuação. Por esta ela pode ser admirada e até cobrada.

A celebridade não. Ela pode ser cobrada por seu single. Por seus arranjos. Por sua apresentação no Music Awards. Não por seu discurso político. Não se quer dizer com isso que ela não possa ou não deva abordar política em suas músicas ou falas. Mas sua função social primária na representação, certamente, não é essa.
 Para bell, o amor, a afetividade, entre nós comunidade negra, tem função social, coletiva e de união como grupo e atua diretamente contra o racismo.
O amor próprio da celebridade cura o indivíduo, o amor do ativista cura a coletividade.

Fica aí a grande questão de que tipo de amor estamos dispostos a doar quando militamos

“Quando nós, mulheres negras, experimentamos a força transformadora do amor em nossas vidas, assumimos atitudes capazes de alterar completamente as estruturas sociais existentes. Assim poderemos acumular forças para enfrentar o genocídio que mata diariamente tantos homens, mulheres e crianças negras. Quando conhecemos o amor, quando amamos, é possível enxergar o passado com outros olhos; é possível transformar o presente e sonhar o futuro. Esse é o poder do amor. O amor cura.”

Anúncios

3 comentários sobre “Entre o coletivo e o particular, a difícil escolha do ativismo

  1. LUCINEIDE CARVALHO SILVA says:

    Um texto muito pessoal! Acredito que todos aqueles que vivem essas mesmas histórias reais, em alguns momentos passam por dilemas muito parecidos.

    Curtir

    1. tiasue says:

      Toda resenha é um ponto de vista sobre um texto ou um contexto. Discordo que seja um texto pessoal, é um texto político. Uma reflexão sobre o balanço, o equilíbrio, entre o que é experiência pura e o que é experiência compartilhada e portanto coletiva.

      Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s